“Now that everyone in the developed world seems to own some form of camera, a different space has opened for documentary photographers. It is a space free from specific events, where there are different expectations, where it is first and foremost about ideas. Now we can all take pictures, with varying degrees of consistency, more than ever before it’s about what we do with photography.”
Mark Power
Na Cabeça é uma seção fixa do blog modobulb, nela dividiremos com o leitor uma imagem que está presente, atualmente, em nossa memória de forma marcante e forte. Aqui, publicaremos a imagem e discutiremos os motivos pelos quais ela nos causa encantamento.
Convidaremos algumas pessoas para fazer o mesmo, dividir conosco as imagens que estão nas suas cabeças e para falar um pouco sobre elas.
* inspirada pela leitura das páginas “on my mind” da Revista FOAM. (é…. gostamos mesmo dessa revista)
Vamos começar então……
Na cabeça : Lua Morena Cruz.

Ideologies - Emanuele Fontanesi
Essa imagem me fascina por que ela cria uma aura em si mesma que me envolve como espectadora e como personagem.
Olhando para eles eu penso: “onde vamos chegar com esse merda toda?”
Escuto: Uma multidão ensandecida, na Bastille, revirando carros, respirando gás lacrimogênico, com paus, pedras e armas na mão.
Sinto: como se eu estivesse lá só para fazer o retrato de um casal que vai dar tudo por uma ideologia, seja ela fracassada ou não, e quer apenas ter a sua imagem gravada pra sempre, como nos retratos mais remotos.
Eu olho as suas expressões, tão confiantes, tão crédulas em algo completamente intangível, mas que me fazem acreditar que eu quase posso segurar com as minhas mãos.
Ideologies é uma imagem do fotografo italiano residente em Paris, Emanuele Fontanesi, cujo trabalho me chamou atenção por ser marcadamente referenciado pela estética cinematográfica dos anos 1970, por ter uma despretensão deliciosa, por me fazer imaginar que eles (Philipine e Manu), hoje meus amigos, nessa situação poderiam ser dois revolucionários prontos para entrar em combate por acreditar em algo verdadeiro.
Na Cabeça : Felipe Russo

Simon Norfolk
Quando vi o livro Afghanistan: Chronotopia de Simon Norfolk foi como uma revelação. A Guerra no Afeganistão se transformou ou pelo menos a imagem que eu fazia dela. Norfolk foi fotojornalista até 1994 quando decidiu investigar as guerras, a industria bélica, a política envolvida nesses conflitos e sua influência na vida das pessoas comuns. Fez isso usando uma camera de grande formato e o comportamento de um fotógrafo de paisagem.
Em Afghanistan: Chronotopia o fotógrafo mostra um país em ruínas. Cinemas, museus, teatros, parques e outras áreas comuns a todas as cidades do mundo. Símbolos do convívio social, agora são paisagens desoladas repletas de marcas da guerra que passou.
A imagem de capa do livro nunca saiu da minha cabeça, carrego ela como uma tatuagem que quase diariamente é lembrada.
A imagem é de um parque em Kabul. Nela vemos as ruinas de uma casa de chá, ruínas essas que lembram mais um sítio arquelológico. A direita do quadro escadas dão acesso ao que, provavelmente, foi uma varanda onde o chá era servido. A imagem é quase toda monocromática, terra, só um ponto na imagem emana cor. Um homem em pé segura um punhado de balões amarrados a um bastão. Costumo ver esse homem como um herói de Guerra. É impossível não pensar nas crianças que depois de viverem os hororres desse conflito, hoje cresçem nessa paisagem desoladora. Fico pensando na importância desse homem, na alegria, mesmo que fugaz, que sua presença provoca.
Na legenda o texto diz “Balões eram ilegais durante o Regime Taliban, mais agora vendedores de balão são comuns nas ruas de Kabul”.
O vendedor de balão na imagem de Simon Norfolk assume um valor de representação enorme, antes proibido de circular, ele agora vende seus balões pelas ruas de Kabul. Porém, quem os compra? Seria mesmo a “liberação da venda de balões” o motivo desse conflito? O homem com os balões é uma figura pequena, desarmada, frágil mergulhada em uma enorme paisagem política, onde a vontade de poucos altera, profundamente, a vida de muitos.
Em uma única imagem Simom Norfolk é capaz de representar, com aparente simplicidade, a complexidade e os efeitos devastadores da Guerra.
Vendo essa foto minha reação é de gratidão e esperança. Gratidão a pessoas como Simon Norfolk que dedicam a sua vida a pensar e produzir imagens como essa. Esperança de que essa imagem possa ser vista pelo maior número possível de pessoas e que pelo menos uma fração delas possa se transformar ao vê-la.

Africanis 12. Ricmond, 4 de Abril. Daniel Naudé
Somos assinantes e fãs da revista holandesa FOAM desde seus primeiros números, esperamos ansiosos a chegada de cada edição.
Editada pelo museu FOAM em Amsterdã a revista normalmente apresenta 8 portfólios ligados por um mesmo tema, com abordagens completamente distintas, uma celebração a diversidade e a capacidade de renovação da fotografia e daqueles que a utilizam como mídia para a realização de seus trabalhos. Uma vez por ano uma edição especial é editada, a Talent Issue, apresentando portfolios de jovens fotógrafos com menos de 35 anos.
Esse post não é sobre a FOAM e sim sobre uma das belas surpresas que essa edição (Talent / Fall 2009 / #20 ) trouxe em suas páginas, o trabalho “Africanis” de Daniel Naudé.
Daniel Naudé é sul Africano nascido em Cape Town, e no auge de seus 25 anos de idade apresenta uma série sólida e de beleza ímpar. Naudé une à tradição do retrato, da fotografia de paisagem e a fotografia científica, o registro dos espécimes animais. Daniel também se alimenta dos desenhos e pinturas do final do século 18, pintores esses que percorriam paisagens remotas das colônias registrando a fauna, flora e seus habitantes. Ele mesmo cita a influência das pinturas de George Stubbs e Samuel Daniel.

The Moose, 1773 – Óleo sobre Tela. George Stubbs,

Africanes 11. Murraysburg, 4 Fevereiro 2009. Daniel Naudé.
Em sua série Africanis, Daniel fotografou cachorros selvagens das paisagens rurais e naturais do sul da África. Esses cães são hoje reconhecidos como uma das poucas linhagens naturais e puras de Canis (gênero da famílias dos Canídeos, que abriga os cães domésticos) no mundo. Sua descendência genética remete aos cães Egípcios, aqueles eternizados nos murais de tumbas e templos.
Olhando as fotografias é fascinante pensar que esses animais e seus corpos foram esculpidos por séculos de evolução criando relações diretas com a paisagem onde vivem. Em suas fotografias ao enquadrar seus personagens ao centro deixando espaço para a paisagem que os cerca o fotógrafo nos permite admirar essa relação. A altura do corpo, a cor e textura dos pelos e o tamanho dos olhos e orelhas são confrontados com a paisagem árida Além disso, a luz é sempre muito bem utilizada, uma influência direta das pinturas antes citadas. Ao ver suas imagens é impossível não se perguntar: como ele conseguiu posicionar animais não domesticados de maneira tão precisa e natural? Com certeza isso é fruto de muito trabalho, horas de andanças, observação e compreensão do comportamento desses animais, respeito e admiração.
Daniel Naudé é um caçador que se aproxima de forma sorrateira de sua presa, porém o que ele traz de volta não são troféus, cabeças para pendurar nas paredes, são belas imagens onde cada um desses cães é individualizado, enaltecendo suas características únicas. É interessante pensar também que convivemos, como espécie, com cães domesticados há gerações o que com certeza influência muito a forma como olhamos os Africanis de Naudé. Nessas imagens esse não é o caso, esses animais são independentes, vivem com os recursos que essa paisagem lhes oferece ou que nela eles devem buscar e o que mais impressiona é que um olhar atento pode identificar os traços dessa vida no corpo (marcas, cicatrizes, sua postura, as costelas protegidas por pouca carne…) e nos olhos desses animais.
Conhecer este trabalho foi um presente!
Começa aqui MODOBULB, um blog de Felipe Russo e Lua Morena Cruz:
O modo bulb é um dispositivo das câmeras fotográficas que permite ao fotografo controlar o tempo de exposição utilizando um disparador ou o dedo. O tempo pode ser contado de forma diferente sem a precisão do obturador e sim com a intuição e desejo do fotógrafo.
Modobulb será um espaço de experimentação para escrevermos a respeito dos assuntos que nos interessam como exposições, livros, trabalhos que nos chamam atenção e sobre nossos projetos.
As postagens não serão na velocidade habitual da internet, trabalharemos em longa exposição. Ao contrário do grande fluxo de informação ao qual estamos acostumados a nos expor, o modobulb será atualizado de forma mais espaçada de acordo com a nossa disponibilidade para escrever, mas com a mesma dedicação e interesse de quem faz posts diários.