na cabeça – Um casamento, um muro
Há um tempo atrás fiz um pedido cara de pau e ganhei de presente um CD para um exercício livre de edição. O presente continha 504 fotos de um projeto que tive o prazer de ver em exposição na mostra E.CO, em 2010 (São Paulo).
“O Muro“, série do coletivo – de amigos queridos – Garapa fala de uma situação de limite, com a construção de uma imensa divisória entre a favela de Santa Marta e a mata, no Rio de Janeiro. Essa barreira de concreto, chamada de ecobarreira, é uma grande linha de 634 metros de extensão, 3 metros de altura e toneladas de questões a serem discutidas, para conter a expansão da favela.
Poder ver esse material na íntegra foi um prazer, pois o que sempre me fascinou nos trabalhos de edição e curadoria foi a possibilidade de ver antes, de ver de perto, trabalhos e escolhas escondidas. Como o mocinho-super-herói-anônimo de uma antiga série de TV que eu assistia, chamada “Early Edition” (Edição de Amanhã), tive o prazer de ver coisas que ninguém (ou quase ninguém viu). Na TV o mocinho, Gary, recebe todos os dias, em sua porta, o jornal de amanhã, trazido por um gato amarelo. Ele com o destino de sempre ver antes tudo o que irá acontecer, vive para evitar tragédias, desastres, salvar vidas, correr contra o tempo a favor da população de Chicago. Minha intenção nesse post é muito mais simples do que Gary fazia na série, porém não menos importante: resgatar uma linda fotografia que não estava exposta na ocasião da E.CO e que não consigo tirar da minha cabeça.
Um casamento simples; um vestido muito branco; a meia-calça da menina e a toalha do altar que parecem ter sido combinados; o seu vestido cor-de-rosa e o mesmo detalhe na bíblia; a pele tão negra e tão linda segurando rosas vermelhíssimas; um colar de pérolas que repousa delicadamente sobre o colo; os olhos fechados revendo um filme inesgotável de memórias, se somam para completar a orquestração e impedem nosso olhar de se fixar em apenas um lugar. Para mim essa imagem precisa ser vista hoje, não na edição de amanhã.


Sabe que eu não tirei essa foto da cabeça por um tempo tb.
No ensaio editado resolvemos mostrar mais os muros presentes no Sta Marta, as ruas estreitas, a arquitetura desordenada que criava becos, vielas, cercamentos… e deixamos o cotidiano fora desse primeiro corte.
Mas lembro do casamento do seu salvador… o senhor que nessa foto me salta tanto quanto o vermelho do bouquê.
Me salta tb a lembrança de não ter recuo pra enquadrar e ver aquele muro, cercamento das vielas, onipresente nessa imagem.
Bela lembrança essa de hoje!
Pois é querido Leo, bom saber essas histórias, e vê-lo falando desse “primeiro corte”. Esperamos ver novamente, novas propostas, novas edições. O trabalho é lindo e digo mais, gostaria de saber como estão as coisas hoje. Como foi/está sendo a adaptação? Será que assim como o muro de Berlim, esse também já começou a ser derrubado?
Bom poder ter o prazer de conhecer melhor o trabalho de vocês, obrigadíssima pelo presente! Um beijão, Lua