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na cabeça – William Eggleston

Posted in na cabeça by modobulb on January 27, 2010

‘I think of them as parts of a novel I’m doing.’

(William Eggleston, entrevista para Walter Hopps, 1998)

Pra mim a fotografia sempre esteve muito relacionada ao cinema. Quando comecei a pensar em estudar alguma coisa, pensei que que era isso que queria estudar. Só alguns anos depois descobri que o me intrigava no cinema era a imagem estática. Pra mim (e acho que pra todo mundo) o cinema é até hoje feito de várias fotografias, e tê-las isoladas é encantador. A lembrança do filme é um fotograma.

Acho que por isso tenho uma tendência a criar cenas pra cada imagem que admiro. Fantasio, imagino o que devia estar acontecendo e também o que aconteceu no momento seguinte. Pra mim essa tensão entre o que vejo e o que imagino, se torna maior frente a algumas imagens como as fotografias de William Eggleston ou Joel Sternfeld, por exemplo.

Para essa análise escolhi uma fotografia do Eggleston, americano, nascido em 1939 em Memphis, região onde fotografou por toda a sua vida, foi um dos pioneiros no uso da cor como elemento estético, na fotografia considerada artística.

Então, diante do conhecimento de como ele se comporta como fotografo, sua forma de se mover, seu jeito de  falar, e ao mesmo tempo da minha incapacidade de verbalizar porque eu gosto tanto de seu trabalho, se torna um grande desafio.

Ter a certeza de que ele é um grande fotógrafo me traz uma certa tranqüilidade, sua genialidade é aceita pela comunidade fotográfica. É inquestionável. Através da leitura de alguns ensaios sobre o seu trabalho, especialmente a introdução do seu William Eggleston’s Guide, editado pelo MoMA, escrito pelo grande Szarkowski, passei a tentar entender essa genialidade que me emociona tanto.

Assim como Szarkowski, na época que escreveu a introdução do livro, eu também nunca estive em Memphis ou Mississippi, locais onde Eggleston costuma fotografar, entretanto o que vejo em suas fotos é pra mim a representação mais real de um lugar. Suas fotos pra mim são cheias de intimidade, a intimidade de só quem sempre viveu num lugar por toda a vida conseguiria fotografar algumas coisas com tamanha naturalidade, sem parecer pretensiosamente artístico.

Dizer que a cor em Eggleston é incrível, não passa de repetição.  Mas não dizê-lo é uma falta grave, um desleixo.  Certa vez me fiz essa pergunta: “Essa cor existe ou só existe por causa do Eggleston?”

Cada vez estou mais convencida de que certas coisas só existem por causa de grandes pessoas como ele.

É interessante como a imagem que fazia de Memphis era absolutamente diferente, mas ao mesmo tempo irreal. Ver Memphis através de Eggleston, foi pra mim como, imagino, ter sido visto pelos americanos, os EUA pelos olhos de  Robert Frank no seu The Americans ou por Walker Evans com o seu American Photographs. Ter certeza de que é real, é imperfeito, é tangível, me aproxima não só da fotografia, mas também do lugar.

Uma foto que não sai da minha cabeça é um retrato, retirado de seu livro William Eggleston’s Guide que sempre me emociona.

Quando olho para essa foto sinto uma angustia, um isolamento, uma sensação de incapacidade diante da vida. Esses dois homens estão parados diante de algo que não podemos ver, mas seus rostos denunciam não ser muito agradável. A postura de corpo de ambos é semelhante, mãos no bolso, semblante tenso, um olhar fixo em algo que imagino ser assustador, como se estivessem no limite da inércia para a ação.

A porta do carro aberta como se tivesse sido abandonado diante da cena que viram; as folhas secas no chão e o tom amarelado outonal, em contraposição ao nome da foto que indica ser verão, causam uma atmosfera de desolamento.

Sempre me vem a mente cenas de filmes de David Lynch, quando vejo certas fotos de Eggleston, essa é uma delas, aquela atmosfera meio surrealista-expressionista que desafia a nossa leitura do real diante do tumulto da vida, da deformação das coisas ao redor, da ausência de controle em detrimento da razão.

Ao contrário de muitas fotos de Eggleston que causam a  impressão de que qualquer um é capaz de fazê-las, Summer, Mississippi, Cassidy Bayou in Background (circa 1970), prova que isso não é possivel.

O instante capturado também sugere denunciar uma relação de hierarquia profunda entre os dois homens. Como se aquela fosse a distância mínima a ser mantida entre os dois, mesmo quando estão um ao volante e o outro como passageiro. Se o homem negro estivesse a frente, suspeitariamos ser ele o empregado e o branco o empregador? Nessa disposição as funções parecem invertidas, Eggleston provoca nossos preconceitos.

Além disso, o instante em Eggleston parece se prolongar, assim como a leitura/fruição da imagem que convida a uma apreciação a longo prazo.

6 Responses

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  1. dobrasvisuais said, on February 3, 2010 at 1:22 pm

    Gostei do post, Eggleston é realmente instigante.
    Conheci o blog hj e vou voltar sempre.
    Obrigada por colocar o Dobras Visuais no blogroll.
    Abraços, Lívia

  2. modobulb said, on February 6, 2010 at 6:55 am

    Obrigado pela visita Lívia. Estamos sempre passando pelo dobrasvisuais.

    Abraços!

  3. Denis said, on February 9, 2010 at 6:28 pm

    Muito legal conhecer o blog de vcs, valeu pela dica. Muito massa a consistência das suas discussões, a paixão de vcs por fotografia, a vontade de trocar e de desenvolver o olhar. Vou passar sempre aqui.
    abs!
    Denis

    • modobulb said, on February 10, 2010 at 1:31 pm

      Fala De, muito legal receber sua visita por aqui! Seu blog é sempre uma leitura constante.
      Grande abraço

  4. fernanda prado said, on March 13, 2010 at 2:37 am

    Muito legal o blog, Felipe!

    O Daniel comentou com a gente ontem na reunião da Oficina e resolvi dar um pulinho aqui para ver! E logo de cara me deparo com Eggleston (o meu preferidos dos preferidos!). Voltarei mais vezes!

    bj e boa sorte no blog,
    Fernanda

    • modobulb said, on March 15, 2010 at 3:05 pm

      Oi Fernanda, legal você por aqui! Bom saber que o Daniel anda fazendo propaganda.

      Um abraço!


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