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Michael Wolf, fotógrafo de rua.

Posted in correspondências, fotógrafos by modobulb on June 19, 2010

Michael Wolf nasceu em Munique, em 1954. Cresceu nos EUA, Canadá e Europa, mudou-se para China em 1995, onde publicou 5 livros de fotografia. Wolf tem um interesse crescente nas relações humanas, na cidade e sua arquitetura. Em seu trabalho Transparent City (2008) o autor faz dípticos com imagens de prédios e detalhes pixelizados de cenas da vida ali.

Transparent City – Composite (#4)

Em Street View: A Series of Unfortunate Events, Wolf retorna a questão das relações humanas, isolando cenas capturadas pela tecnologia Google Street View, um mecanismo que faz imagens em intervalos regulares, através de um scanner localizado no topo de um carro, que é dirigido pelas ruas a serem mapeadas, possibilitando imagens de pessoas e detalhes, numa tentativa de fazer um mapa fotográfico do mundo.  Esse ato de apropriação, também denominado seqüestro de fotografias é o conceito que Tadeu Chiarelli, desenvolve em Quando se fala sobre fotografia no Brasil (1998).

Street View - Michael Wolf

Street View - Michael Wolf

A fotografia seqüestrada é aquela retirada de seu lugar de origem e relocada, proporcionando sua resignificação e sua recontextualização. Esse procedimento artístico, tão comum nas artes plásticas com a colagem e, também, com a fotomontagem, continua em voga (CHIARELLI, pg 192).

Wolf desenvolve esse procedimento com auxilio da ferramenta de mapeamento do Google.  O seu trabalho é a apropriação de imagens, deslocadas de ser contexto público, levando-as para um contexto privado. Separando imagens cria novas experiências, pois além de retirar essas fotografias de uma localização anterior, reenquadra-as decompondo sua forma original e criando uma nova imagem, um novo universo, uma nova narrativa.

Outro questão absolutamente necessária para discussão é o clássico momento decisivo, típico da fotografia de rua, super representado por Henri Cartier-Bresson, Robert Doisneau e a cidade de Paris, especialmente. Entretanto, o instante decisivo, aqui, não depende do fotografo, apenas, uma vez que, a sua apropriação envolve a seleção das cenas interessantes, mas não propriamente o clique, somado a isso autor busca uma melhor organização da forma e do espaço, através do reenquadramento.

Street View - Michael Wolf

O voyuerismo, também, não poderia deixar de ser citado, nos fazendo questionar quem é o voyeur: o Google? O autor na sua busca por imagens de eventos ‘incomuns’? Os usuários dessa ferramenta?

Para essa questão o mecanismo de mapeamento criou um blur (desfoque) automático, nos rostos que aparecem no escaneamento, para tentar proteger a privacidade das pessoas nas imagens. Entretanto, o que vemos no mapeamento feito pelo Google Street View e na apropriação feita por Wolf é a ponta do iceberg sobre as questões sobre os limites entre o público e o privado. Mesmo com o desfoque ainda é possível reconhecer e ser reconhecido nessas imagens.

Street View - Michael Wolf

A partir do momento que Michael Wolf retira essas fotografias de seu contexto original de ferramenta de localização e as põe em paredes de um museu ou galeria, questionamentos sobre direito de uso de imagem emergem e se desfazem na mesma velocidade. Pois o que Wolf faz é tão ‘grave’ quanto as fotos de Doisneau ou Bresson, nos seus instantes decisivos de momentos, que de fato, aconteceram, como nos de Michael. Sua seleção, obviamente, privilegia o inesperado e semelhanças com imagens clássicas da iconografia de cidades, como Paris.

Kiss by the Hotel de Ville, 1950 – Robert Doisneau

O beijo de Doisneau associado, infinitamente, ao imaginário do romantismo em Paris, se repete. O beijo deixa de ser uma idéia de algo que aconteceu, para algo que pode estar acontecendo exatamente agora e não, necessariamente, flagrado pelo ‘olhar sensível e inalcançável’ de um fotógrafo de rua.

Street View Paris #26 -Michael Wolf

O trabalho de Michael Wolf envolve questões de ordem técnica, conceitual e autoral. A autoria é tão inquestionável quanto nas apropriações de fotografias feitas por artistas plásticos como Rauschenberg ou Wahrol, a autenticidade é confirmada, pela originalidade do procedimento na utilização desse mecanismo, o conceito é instigante por tratar de questões tão contemporâneas e, ao mesmo tempo, atemporais, como a privacidade e o voyuerismo. Por isso, quem sabe, podemos considerá-lo o primeiro ‘fotógrafo de rua online do mundo’.

referências

CHIARELLI, Tadeu. Quando se fala sobre a fotografia no Brasil. In: CANONGIA, Ligia (Org.). Arte foto. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002. p. 191-196.

Para conhecer mais desse trabalho, leia a FOAM e visite a site do artista.

Paris Street View– Michael Wolf. In: Foam #22 / Peeping – International Photography Magazine. Holanda: Amsterdã, 2010.

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