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Sobre a reprodutibilidade

Posted in correspondências, fotógrafos by modobulb on July 31, 2010

Claudia Angelmaier, Hase, 2004

Conhecemos o trabalho de Claudia Angelmaier na revista Aperture, na edição Fall/008, n. 192. Desde então, o trabalho ficou na nossa cabeça. Recentemente visitando o site do fotógrafo João Castilho, por quem temos muita admiração, conhecemos o  seu trabalho Metamorfose e relembramos os trabalhos Pflanzen und Tiere e Works on Paper, de Angelmaier, que tratam de questões referentes a reprodutibilidade das obras de arte.

Ao falar desses trabalhos nos é impossível não citar o ensaio de Walter Benjamin, intitulado “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, escrito em 1936.  Na época em que foi escrito, o referido ensaio, o mundo fervilhava com muitos acontecimentos recentes como a explosão da indústria automobilística, o cinema e a, não tão antiga assim, fotografia. Entretanto, muitas considerações feitas por Benjamin permanecem absolutamente atuais. “Dado que as superestruturas evoluem muito mais lentamente que as infra-estruturas, foi preciso mais de meio século para que a modificação ocorrida nas condições de produção fizesse sentir seus efeitos em todos os domínios da cultura” (Walter Benjamin). E esses efeitos são sentidos até hoje.

“Mesmo por princípio, a obra de arte foi sempre suscetível de reprodução. O que uns homens haviam feito, outros podiam refazer. Em todas as épocas discípulos copiaram obras de arte a título de exercício; mestres as reproduziram para assegurar-lhes difusão, falsários as imitaram para assim obter um ganho material. As técnicas de reprodução, entretanto, são um fenômeno inteiramente novo, que nasceu e se desenvolveu no curso da história, por etapas sucessivas, separadas por longos intervalos, mas num ritmo cada vez mais rápido.” (Walter Benjamin).

Angelmaier, observando a não-fidelidade das reproduções de grandes obras artísticas – em livros de história da arte – resultado de processos fotográficos e de impressão, criou uma série de fotografias chamada Works on Paper. Nessa série a autora monta um mosaico com esses livros de arte, que contém uma reprodução de uma mesma obra, e fotografa-os de forma a explorar a planitude da montagem, a geometria da composição, a neutralidade da aproximação que fazem a repetição da cópia se torne quase apenas uma lembrança do original, como se o objeto verdadeiro fosse inalcançável, intocável, absolutamente desprendido de sua aura de originalidade e autenticidade.

Claudia Angelmaier, Hirschkäfer, 2004

Ao ver todos os livros juntos percebemos a assustadora diferença de alguns elementos como contraste, cor, claridade e brilho afetando a noção geral de conhecimento da dada obra. Mesmo aqui, no blog o que vemos, não representa fidelidade com o original, assim como na publicação Aperture. Os diferentes suportes de impressão, veiculação e recepção mudam o aspecto da obra, sejam as fotografias de reproduções de Angelmaier ou o original do quadro reproduzido em questão.

Assim, ao fotografar os livros, a autora reproduz mais uma vez, ampliando a discussão e estabelecendo o seu discurso. O trabalho de Angelmaier inclui, além dos livros de arte, slides e cartões postais alargando a crítica sobre a reprodutibilidade.

Já o trabalho do fotógrafo João Castilho, explora o aspecto da reprodutibilidade, na literatura. Seu trabalho Metamorfose é uma série de 21 fotografias, que compõe uma fotoinstalação, da frase inicial da novela homônima de Franz Kafka, em 21 traduções distintas para o português. Cada fotografia revela um novo começo, dando-nos a terrível impressão de que existe licença poética para tradutores. O livro começa não simplesmente traduzido, mas reescrito.

João Castilho, Metamorfose, 2010

Esse trabalho reforça a reflexão sobre a reprodução, e a ampliação do acesso da informação ao maior numero possível de pessoas, ressaltando as perdas e ruídos desse processo de disseminação.

João Castilho, Metamorfose, 2010

Cláudia Angelmaier é uma fotógrafa alemã, nascida em 1972. Com formação acadêmica em Geografia, Inglês, Fotografia Fine Art. Ganhou diversos prêmios e  bolsas entre eles Leopold Godowsky, Jr. Color Photography Award e Kulturstiftung des Freistaates Sachsen Scholarship. Participou de diversas exposições coletivas e individuais, tem se trabalho publicado como “Claudia Angelmaier – L’image et l’objet” pela Fotohof Edition, Salzburg (Austria) e pela Aperture (Fall 2008/issue no. 192) e está presente em várias coleções públicas e privadas.

João Castilho é um fotógrafo brasileiro, que vive e trabalha em Belo Horizonte. Formado em Jornalismo, especialista em Artes Plásticas e Mestrando em Artes Visuais. Ganhou diversos prêmios e bolsas como a Bolsa Funarte de Estimulo à Criação Artística (2008) e o Prêmio da Fundação Conrado Wessel de Arte (2008). Participou de diversas exposições individuais e coletivas. Seu trabalho está presente nas coleções de alguns dos maiores museus do Brasil como a coleção Pirelli/MASP (SP) e o Museu de Arte da Pampulha (MG). O livro Paisagem Submersa de João Castilho, Pedro David e Pedro Motta é, simplesmente, maravilhoso.

8 Responses

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  1. Juan Esteves said, on August 1, 2010 at 12:26 am

    Interessante o paralelo…

    Sugiro uma olhada no trabalho Ex-Libris, de Ralph Gibson, de 2000 e nos trabalhos de Joan Fontecuberta, Semiopolis , de 1999 e Deletrix, de 2005.
    Abs
    Juan Esteves

  2. Juan Esteves said, on August 1, 2010 at 12:27 am

    corrigindo, Joan Fontcuberta e Ex-libris, 2001

    • modobulb said, on August 1, 2010 at 2:18 pm

      Oi Juan, obrigado pelas dicas! Vamos pesquisar com calma.
      Volte sempre! Um abraço, Felipe e Lua.

  3. rafaela said, on August 3, 2010 at 7:06 pm

    penso em transcriação.

    • modobulb said, on September 4, 2010 at 1:31 pm

      Rafa querida,

      adorei seu pensamento, queria saber mais!!!

      Beijo, Lua

  4. Rodrigo Zeferino said, on August 4, 2010 at 2:04 pm

    acabei de conhecer. muito bom isso aqui.

    • modobulb said, on September 4, 2010 at 1:30 pm

      Olá Rodrigo,

      Mil desculpas pela demora em responder seu comentário!!! Que bom que você gostou. Essa semana tem post novo.

      Um abraço!

  5. […] anteriores como Redemunho (2006), Série Cega (2007) e Metamorfose (2010), essa última comentada aqui no blog. Entretanto em Peso Morto, as palavras vem depois das imagens. Imagem da série 'Peso […]


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