modobulb

Albinos: três pesquisas, uma breve introdução

Posted in correspondências, fotógrafos by modobulb on September 12, 2010

Há algum tempo as pesquisas de 3 autores me chamaram muita atenção por tratarem seus sujeitos com abordagem absolutamente distinta. Nesse post quero comentar autores com trabalhos que falam de pessoas com albinismo.

Os fotógrafos são de nacionalidades distintas, sendo Gustavo Lacerda, brasileiro; Diego Ravier, espanhol; e Pieter Hugo, sul-africano, e apesar de seus temas serem semelhantes, o desenvolvimento da temática assume contornos diferentes. As diferenças culturais, a investigação plástica, a aproximação física, a forma de enquadrar, o caminho que a legenda percorre, transformam-se em discurso e são latentes nas imagens.

Pieter Hugo – Looking Aside - Samkelisiwe Nomusa Mbeje, Pietermaritzburg, 2005

Pieter Hugo – Looking Aside - Wonderful Nokukhanya, Pietermaritzurg, 2005

O trabalho de Pieter Hugo, Looking Aside, é frontal, é direto, é sem rodeios. O nome remete ao ato, de virar o rosto, desviar o olhar diante de pessoas incomuns. Nessa série o autor fotografou pessoas com desordens muito visuais: albinos, cegos, pessoas com doenças de pele. Desafiando os nossos preconceitos e reações “instintivas” de ver com o “canto” do olho, Hugo nos “obriga” a olhar diretamente. Isola o sujeito do seu contexto, colocando-o contra um fundo branco absolutamente neutro, ressaltando, assim, a face, a cor, os olhos, o cabelo, as marcas na pele, a expressão única de cada uma daquelas pessoas, individualizando-as. Assim, como no retrato 3×4 para documentos, a imagem que vemos é descritiva, se propondo a identificar, não deixar dúvidas sobre quem é o sujeito. As legendas reforçam essa marcação: nome e sobrenome, cidade, ano em que foi realizada a imagem.

Diego Ravier – Genetic Contrast -These woman sells fruits in the full sun without any appropriate protection

Diego Ravier – Genetic Contrast - Some young people must drop out of school and they look for any sort of job

Já o fotógrafo Diego Ravier discute a questão do albinismo com outra abordagem. O título do projeto Genetic Contrast fala de contrastes que são  explorados visualmente nas cores, nas locações escolhidas, na luz dura, na contraposição na cor da pele das pessoas. O longo texto introdutório do projeto se propõe a explicar detalhadamente as causas do albinismo  e seus problemas (a doença explicada cientificamente, os problemas decorrentes dela como o câncer, a miopia, o astigmatismo; suas causas hereditárias; o agravamento desses problemas por falta de recursos, óculos, estudos), levantando questões típicas do fotojornalismo engajado.

O trabalho é mais narrativo, dá caminhos, adiciona – através do texto/legenda – críticas diretas a situação na qual essas pessoas vivem com o descaso do governo, os problemas sociais e psicológicos enfrentados por elas, que são muitas vezes tratadas como objeto de zombaria e superstição no local onde vivem. Suas legendas relacionam as ações e as pessoas ao momento em que foram feitas as fotografias ou a forma como elas tentam apaziguar seus problemas. Descrevendo a cena e adicionando informações provenienets de contato próximo e demorado com cada pessoa fotografada, Ravier traça um panorama da situação das pessoas com albinismo em Burkina Faso, país onde passou meses se dedicando a esse trabalho.

Gustavo Lacerda – Albinos – Oleneide, Renan e Italo

Gustavo Lacerda – Albinos – Patrícia

O trabalho de Gustavo Lacerda, que está sendo exposto, atualmente, na 18a edição da Pirelli-Masp, intitulado Albinos é de outro tom. As cores acalmam, a plasticidade é explorada pela suavidade das passagens dos tons pastéis que permeiam a obra, que se assemelham a pinturas de grandes artistas como Edgard Degas ou até a fotografia de Anna Mariani.

Belos retratos talhados a mão, cada detalhe não é por acaso. As roupas, as pessoas, a forma como posam para o retrato, os fundos decorados com motivos delicados não estão ali como critica inflamada a situação dos albinos enquanto pessoas diferentes, e sim a beleza única que deles transborda. Ao ver essas fotografias sinto vontade de tocar, de passar suavemente a mão e sentir o cheiro doce de cada uma dessas cores.

Tão suave quanto as imagens é a forma como o texto é somado ao trabalho. Nomes, sem sobrenomes. Nomes de pessoas que me parecem, ser hoje, seus amigos. Uma aproximação íntima, delicada e respeitosa.

Um aspecto interessante que deve ser comentado é a especificidade cultural de cada trabalho. Tendo Pieter Hugo e Diego Ravier realizado seus trabalhos em países no continente africano, o referente Cor (da pele) toma outras proporções. O que é ser branco em um pais predominantemente negro? O que é ser albino nesse contexto?

Somada a mística, as superstições, aos preconceitos, a alvura máxima da pele determinada por uma enfermidade extrapola o sentido da discriminação racial. O olhar com o canto do olho é transformado em encarar de frente, no trabalho de Pieter Hugo. A mistura de cores, tecidos, costumes tão mágica, realizada por Diego Ravier, é subvertida na ideia de que essas pessoas são caçadas e assassinadas por ocultismo em diversos locais como Tanzânia e Burundi, além de Burkina Faso onde foi realizado este trabalho. O que seria levar as imagens de Gustavo Lacerda para um exposição nesse país? Com repertórios e tradições diferentes vemos o mesmo trabalho de um outro jeito. Apesar de tratar em seus trabalhos da condição de albinismo, os temas são absolutamente distintos, cada um imerso no seu próprio pais.

O incrível na fotografia é que ela permite nos transportar entre as barreiras dos trabalhos, das cidades, dos países e entender um pouco mais de cada lugar. Saber que se é diferente mesmo sendo igual.

————————–

Gustavo Lacerda nasceu em 1970 em Belo Horizonte. Formado em Comunicação pela UFMG. Seu primeiro ensaio fotográfico foi realizado em 1991, uma série de retratos num hospital psiquiátrico. Mudou-se para São Paulo em 1999, onde vive até hoje trabalhou como fotógrafos como Bruno Cals, Maurício Nahas e Paulo Vainer. Ganhou diversos prêmios entre eles o D&AD Global Awards de Londres e o Conrado Wessel por três anos consecutivos. Em 2010 seu trabalho integrou a coleção Pirelli Masp, ainda em exposição no Museu de Arte de São Paulo. Participou de diversas exposições coletivas e indivíduais das quais destaco as mais recentes, Olhar das Marcas (2010 – Cinemateca Brasileira -SP), Coletivo Nuvem (2010 – Galeria Nuvem, SP) e Grafuck 3 (2007 – Nucleus Gallery – EUA). ( http://www.gustavolacerda.com.br/ )

Diego Ravier é um fotógrafo italiano, nascido em 1977. É formado em Administração. Com sua paixão pela fotografia partiu para Paris, onde viveu e estudou na Spéos. Passa longos períodos vivendo em outros paises para relaizar seus trabalhos como Brasil, Vietnã e Burkina Faso. Seus trabalhos são compartilhados com Barbara Zacci, arquiteta italiana, e sua mãe, que colabora como escritora e curadora. Seu trabalho foi exposto em mostras coletivas e individuais como Magazine Awards and Summer Show (Londres), La terre un materiau contemporain, na ESA Gallery Mezzanine (Paris) e SIPF (Festival Internacional de Fotografia de Singapura). (http://www.rzandphoto.com/ )

Pieter Hugo nasceu em 1976 em Cape Town, onde vive até hoje. Participou de uma residência artística entre 2002-3 na Fabrica, em Treviso, Itália. Suas exposições individuais recentes acontecerem na Yossi Milo Gallery (EUA), Le Chateau d’Eau, Toulouse (França), Australian Centre for Photography (Austrália) e foam-Fotografiemuseum Amsterdam (Holanda), além das exposições coletivas e festivais como Les Rencontres de Bamako Biennial of African Photography (Bamako) entre muitos outros. Em 2008 Pieter Hugo ganhou o KLM Paul Huf Award e o prêmio Arles Discovery no Rencontres d’Arles Photography Festival, na França. Seu corpo de trabalho conta com pelo menos 19 trabalhos entre 2003 e 2010. Seu trabalho foi publicado em revistas como Aperture e FOAM, e em forma de livros, entre eles: Nollywood, Prestel, 2009 / The Hyena & Other Men, Prestel, 2007 / Messina/Musina, Punctum Editions, 2007 / Looking Aside, Punctum Editions, 2006. ( http://www.pieterhugo.com/ )

6 Responses

Subscribe to comments with RSS.

  1. Alexandre Belém said, on September 13, 2010 at 1:47 am

    Pessoal,

    Acho que vale um toque sobre o ensaio À Flor da Pele do Alexandre Severo: http://www.olhave.com.br/perspectiva/?p=68

    Saiu das páginas de um jornal no Recife, foi Foto do Dia da Reuters, oito páginas na S/N e segue em frente.

    Mais: http://olhave.com.br/blog/?s=%C3%A0+flor+da+pele&submit=OK

    Abraços.

    • modobulb said, on September 13, 2010 at 3:10 pm

      Oi Alexandre, obrigado.
      Conhecemos o trabalho do Alexandre Severo, uma bela lembrança!
      Optamos pelo Diego Ravier, Gustavo Lacerda e Pieter Hugo, entre muitos que já fotografaram Albinos, porque inicialmente suas abordagens se unem. Os 3 fotógrafos, mesmo com intenções e agendas distintas fazem retratos posados, construídos, criando uma base de comparação que nos instigou a escrever.

      Deixo aqui o link para o ensaio A Flor da Pele do Alexandre Severo.

      O trabalho do Alexandre tem um paralelo interessante com Genetic Contrast de Diego Ravier. Homens, mulheres e crianças brancas pelo albinismo vivem em um país de maioria negra nascidos em famílias negras, e Diego assim como o Alexandre trabalha muito bem essa questão. Quem sabe um novo post!

      Mais uma vez obrigado, volte sempre.

      Um abraço, Felipe e Lua

  2. José Carlos said, on September 14, 2010 at 10:42 am

    imagino se essas fotos tão competentes fossem “ilustradas” com histórias das pessoas. Assim, apesar de bonitas parecem sem alma.

  3. gustavo thayllon said, on September 15, 2010 at 4:58 pm

    é adorei o post esta tudo maravilhoso e muito legal da parte do dono do blog em fazer uma postagen em relação a nós albinos que bom que pessoas se sentem tocadas a colaborar com a acausa albina ! agradeço em nome de todos os albinos

    e ai embaixo esta meu blog que fala de albinismo e minha vida pessoal , dificuldades barreiras que consigo vencer diariamente por conta das dificuldades que o albinismo traz para os individuos portadores !

    http://blogdomeninoalbino.blogspot.com/

    • modobulb said, on September 15, 2010 at 6:12 pm

      Olá Gustavo,

      Que bom que você conheceu e visitou o blog! Muito bacana que você se sentiu tocado com os trabalhos. Os fotógrafos, sim, merecem agradecimento!
      Um abraço e volte sempre.

  4. Castro said, on September 16, 2010 at 11:12 am

    Muito bom o texto, por isso que digo: nós albinos vamos dominar o mundo!

    Para quem quiser conhecer histórias de vida de pessoas com albinismo, basta acessar o link http://www.castrodigital.com.br/2010/04/historia-vida-pessoas-albinas.html

    Você irá conhecer a história de albinos narradas por eles mesmos, inclusive a minha.


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: